O parto natural ainda é tratado como um tabu pela sociedade mas com o tempo cada vez mais mulheres tem buscado alternativas mais humanizadas de trazer crianças ao mundo. A terapeuta Mariane Lamana, 32, grávida de 35 semanas, optou pelo parto humanizado para o nascimento da filha Mariah. Moradora da cidade de São José do Rio Preto, ela busca apoio financeiro e pede ajuda através de doações para tornar o sonho possível. Além do parto, seu objetivo é gravar um minidocumentário desmistificando o assunto com depoimentos de especialistas e imagens mostrando como ele realmente é, desde as primeiras contrações até o nascimento, como incentivo a outras mulheres.

A família está ansiosa com a chegada de Mariah (Arquivo Pessoal)

“Eu associo hospital com doença e parto é saúde. Optei pelo parto domiciliar porque eu quero me sentir segura, tratada como indivíduo, estar com pessoas que eu conheço e confio, escolher cada aspecto do ambiente como sons, cheiros, temperatura e também quero que meu bebê seja tratado como único e não como parte de um procedimento. Quando eu soube que estava grávida meu primeiro pensamento foi ter outra cesárea  (já tive uma há quase 10 anos) mas conforme fui lendo sobre os prós e contras de cada tipo de parto, fui me interessando mais pelo parto natural. Como eu sou uma pessoa meio obcecada e quando me interesso por um assunto eu pesquiso tuuuudo sobre, eu entrei num universo totalmente novo e vi o quanto de informação equivocada, o quanto de mitos a gente reproduz em relação ao parto. Ao contrário do que muita gente pensa, que o parto domiciliar é retrocesso ou perigoso, ele é baseado em evidências científicas e tem como premissa tratar cada caso individualmente”, explica Mariane.

De acordo com a gestante, as informações sobre esse tipo de parto ainda não são tão divulgadas, ele não é coberto pelo SUS e tem um custo relativamente alto. Para pagar o procedimento, ela lançou uma campanha online com o objetivo de atingir o valor de R$ 7 mil, que será utilizado para custear todas as despesas com a equipe de parto e de filmagem. “Nós também pretendemos gravar um mini-documentário do parto, explicando porque acreditamos que essa é a melhor opção dando informações importantes, depoimentos de pessoas que trabalham na área. Essa também é uma oportunidade de informar outras mamães e papais para que assim o parto possa ser uma escolha consciente. Esse vídeo também ficará disponível para que doulas, parteiras, obstetras, obstetrizes e enfermeiras obstétricas possam utilizar como veículo de informação. Os nomes de todas as pessoas que contribuírem estará nos créditos e todos vocês poderão assistir ao vídeo”, conta Mariane. Até agora, 66% do objetivo foi atingido e a campanha se encerra em 20 de outubro.

“Eu me senti deixada de lado na minha primeira cesárea.  Não me senti protagonista do meu próprio parto e isso foi triste. Meu primeiro filho, o Murilo, faz 10 anos em novembro deste ano então, há exatos 10 anos, eu estava passando por uma gestação também. Só que eu não me informei e acabei fazendo uma cesárea que me disseram ser necessária mas que hoje eu sei que não era. Acho que o parto natural é construído no nosso imaginário pela mídia e entretenimento como uma tortura, como se aquela dor fosse de morte quando na verdade é uma dor de saúde. É o nosso corpo no ápice do bom funcionamento. Outra questão é a forma como a medicina aborda o parto. Como sendo algo que pode dar muito errado, na verdade, o parto é algo fisiológico. Pode sim precisar de alguma intervenção médica mas é na minoria dos casos.”, explica ainda.

Mariane ao lado do filho Murilo (Arquivo Pessoal)

“Me senti muito mal por ficar aproximadamente 2h na sala de pós operatório enquanto o meu bebê que acabava de vir para o mundo estava sozinho em um berçário. Até hoje as fotos do Murilo chorando naquele bercinho de hospital me incomodam muito. O Murilo acompanha tudo sobre a gravidez. Eu explico cada detalhe de como vai ser e ele optou por participar. Era uma preocupação na minha família o fato dele estar junto, primeiro porque as pessoas ainda tem essa ideia de que a mulher necessariamente vai parir gritando como se estivesse morrendo e outra porque faz parte da nossa cultura “proteger” as crianças das coisas que a gente acha que elas não vão entender mas o parto é natural, fisiológico, parte da vida. Se a gente não coloca esse medo nas crianças, elas não adquirem sozinhas.

“Acho importante destacar que o parto domiciliar envolve uma preparação. Para fazer o parto domiciliar você precisa inclusive pensar seu parto hospitalar, para o caso de precisar. Você precisa ter o plano B. Eu fiz o plano de parto domiciliar e o plano de parto hospitalar também. A mala da maternidade fica pronta. Caso precise de uma transferência tudo é muito bem pensado e planejado, não tem nada de irresponsável porque tem gente que acha que é modismo, frescura, coisa de hippie. A mãe sempre quer o melhor para o bebê.”, finaliza.

Como posso contribuir e de quanto dinheiro estamos falando? Através do site Vakinha (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/cha-da-mariah) você pode escolher o valor da contribuição e a forma de pagamento. Qualquer valor que vocês quiserem e puderem doar é muito importante.  O pagamento pode ser feito em cartão de crédito ou boleto bancário. Mais informações: Mari (17) 99225-1221.

Veja os diferentes tipos de parto de acordo com a doula Erica de Paula:

PARTO NORMAL: sinônimo de parto vaginal, pode ocorrer natural e espontaneamente, ou com determinadas intervenções. Alguns exemplos de intervenções comuns são a utilização de ocitocina intravenosa (hormônio sintético administrado para induzir ou acelerar o trabalho de parto, provocando contrações mais intensas e frequentes), a episiotomia (corte no períneo e verdadeira mutilação genital realizada com o objetivo de alargar o canal de parto), analgesia (ráqui, peridural ou combinadas), fórceps (instrumento cirúrgico de metal), manobra de Kristeller (pressão no fundo do útero para empurrar o bebê) etc. Infelizmente, na grande maioria das vezes, essas intervenções são utilizadas inadequadamente e sem indicação médica real, tornando o parto um evento traumatizante e realmente digno de medo para as futuras mamães. Por isso, a grande maioria dos relatos de parto traumatizantes que ouvimos se refere a essa violência obstétrica que ainda é praticada por muitos profissionais e instituições, e não ao parto em si.

PARTO NATURAL: sinônimo de parto fisiológico, é aquele que inicia espontaneamente e permanece sem intervenções até a dequitação da placenta. Pode ser ou não humanizado.

PARTO HUMANIZADO: é o parto em que a mulher tem o protagonismo respeitado em relação às suas escolhas sobre como deseja vivenciar esse momento. No parto humanizado, a mulher é deixada livre para se movimentar e escolher a posição em que se sente mais à vontade para parir (deitada, de lado, de cócoras, de quatro apoios, na água etc.). É incentivado o uso de recursos que podem tornar o parto mais fácil e agradável, como bola suíça, massagens, banho (no chuveiro ou de imersão), banqueta de parto, terapias alternativas etc. O ambiente também é levado em consideração, sendo comum a ambientação com meia-luz, músicas da escolha do casal, aromas etc. A parturiente fica à vontade para ingerir água ou comida se assim desejar, e não são realizadas intervenções de rotina (apenas se forem necessárias ou a pedido da mulher, como analgesia). Por isso, não necessariamente o parto humanizado é natural. O parto humanizado pode acontecer no hospital, ser domiciliar ou em casas de parto (nesses dois casos, alguns critérios são fundamentais), e pode ser considerado um evento bio-psico-social-espiritual-familiar, e não apenas médico. Na maioria das vezes, conta com a presença de uma doula e do(s) acompanhante(s) que a gestante escolher. Todas as condutas de um parto humanizado estão em consonância com os estudos científicos mais recentes e de melhor qualidade disponíveis (a chamada medicina baseada em evidências).

PARTO DOMICILIAR: diferente do que muitas pessoas pensam, não representa um “retrocesso” que visa termos o mesmo tipo de parto que as mulheres tinham antigamente, quando elas não podiam escolher e normalmente não eram assistidas por equipes treinadas em emergências obstétricas que dispõem de todos os recursos necessários para lidar com intercorrências. Atualmente, o parto em casa é o que podemos chamar de melhor dos dois mundos, já que é possível aliar todo o conhecimento e tecnologia conquistados até os dias de hoje com o aconchego do lar. O parto domiciliar deve ser assistido por profissionais qualificados: médicos, enfermeiras obstétricas ou obstetrizes (parteiras formadas, chamadas de midwives no exterior e responsáveis por boa parte dos partos de baixo risco em países desenvolvidos). Conta frequentemente com a presença de uma doula. É uma opção comprovadamente segura de acordo com a medicina baseada em evidências e uma boa opção para quem deseja um parto personalizado, com privacidade e completo domínio do ambiente. Costuma ser natural (sem intervenções, que inclusive não devem ser feitas fora do hospital por acrescentarem riscos) e humanizado. São realizados quando tudo ocorre dentro da fisiologia normal e esperada, devendo haver sempre um planejamento detalhado de plano B para a eventual necessidade de transferência hospitalar por necessidade ou desejo da mulher. Também só é recomendado para gestações de baixo risco com um pré-natal bem-feito e para casais que desejam e se sentem seguros com essa opção.

CESARIANA: cirurgia de extração do bebê em que se cortam sete camadas de tecido abdominal. Embora seja uma técnica relativamente segura, está relacionada com desfechos maternos e perinatais piores do que o parto normal, com mais chances de mortes e complicações. Possui todos os riscos inerentes a uma cirurgia (infecção, hemorragia, complicações anestésicas etc.) e se associa a uma recuperação mais lenta e difícil, o que pode comprometer o início da amamentação, o vínculo e os cuidados com o bebê. Quando necessária, é uma cirurgia maravilhosa que salva vidas diariamente.

Fonte: https://revistatrip.uol.com.br/trip-transformadores/trip-transformadores-20016-erica-de-paula-fala-sobre-os-tipos-de-parto