Por Ana Beatriz Rodrigues

Feliz dia do “fique feliz em aceitar o mínimo possível”. É assim que eu vejo o dia das mulheres por um motivo muito simples: é para o que fomos criadas.

Sempre que nos casamos/namoramos/juntamos com um cara que -ás vezes- põe o lixo pra fora, cozinha, troca a fralda dos filhos dizemos que é um Super Homem e que tivemos muita sorte em tê-lo encontrado, quando na verdade ele só é exaltado por fazer o mínimo- que é raro de ser feito.

Comemorar o dia das mulheres é, no mínimo, patético. Crescemos com a ideia de que essa data veio como homenagem a mulheres que, por lutarem por redução da jornada de trabalho e aumento- já que recebiam menos de 1/3 do que recebiam os homens pela mesma função, morreram carbonizadas em uma fábrica téxil em Nova York. Mas é engraçado que isso ainda aconteça todos os dias, ainda que de outras maneiras

No século XXI comemoram-se grandes feitos sobre essa data: direito ao voto, ao trabalho e acesso a métodos contraceptivos, divórcio, usar calças e saias… ou seja, o mínimo.

Em 2021, enquanto comemoramos o mínimo como se fosse o máximo, mulheres ainda ganham menos que os homens (em média 20,5%) e como se não fosse o suficiente elas pagam, em média, 12,3% a mais pelos mesmos produtos que os homens. É a chamada taxa rosa.  Isso sem contar os produtos que são realmente necessários e não possuem uma “versão masculina” como os absorventes/coletores menstruais. Representamos 43,8% do mercado de trabalho. Enquanto homens são promovidos em potencial, mulheres são promovidas por desempenho comprovado. As mulheres, muitas vezes, quando recebem uma promoção recebem junto um comentário do tipo “deu pro cara certo”.

Homens quando saem com mulheres mais velhas tem comentários como “que sexy”, quando mulheres saem com caras mais novos é porque não tem maturidade. Se a mulher ganha mais que o homem, é efeito do feminismo. Se quem ganha mais é ele, certamente ela está dando o golpe.

Mulheres ainda são menos contratadas por terem filhos pequenos ou por poderem engravidar e isso não é só bizarro pelo fato de que elas não fazem eles sozinhas, mas porque ainda vivemos numa sociedade onde a obrigação da criação da prole recai todo sobre a mulher.

Na sua casa, quem realiza a maior parte- se não todas- as atividades domésticas é um homem ou uma mulher? Quando você contrata uma agência de limpeza, quantas vezes enviam homens?

Não dá pra respirar o mesmo ar que Madonna (que o universo conspire para que eu possa ir ao Madame X, amém!) sem lembrar do pessoal que acha o máximo as mulheres poderem tomar anticoncepcionais sem morrerem. Novamente a exaltação do mínimo, na verdade menos que ele. Seria razoável ver como feminista- aqui emprego a palavra no seu sentido original de busca pela igualdade- se existisse anticoncepcional masculino.

“Ain, mas eu li que estavam formulando um…” estavam mesmo e não deve chegar ao mercado porque, “pasme, excelência!” possui efeitos colaterais semelhantes ao anticoncepcional feminino.  Ou seja, aqui já aceitamos menos que o mínimo já que somos tratadas como ratos de laboratório. Homens são tão especiais que não podem sofrer alterações hormonais pra evitar uma gravidez indesejada. E já que entramos no controle de natalidade, quantas vezes você teceu ou leu algum comentário do tipo “deveria ter pena de morte pra mulheres que abortam” e quantas vezes disse ou viu algo no mesmo sentido para homens que fazem com que essas mulheres vejam o aborto como solução ou que abandonam seus filhos com as mães?!

É comum que homens deem aquela famosa pulada de cerca e sejam acobertados pelos amigos e recebam uma bela passada de pano coletivo porque “homem é assim mesmo” ou porque “pensam com a cabeça de baixo” sem serem retalhados por isso. Já quando quem faz isso é a mulher, é um ultraje.

Quando buscamos no google o termo “investidoras de sucesso” ele corrige para “investidores”.

Se você é homem, quantas vezes você muda de calçada quando caminha sozinho? Quantas vezes deixou de usar alguma peça que gosta muito porque te ensinaram que seria um convite para algum assediador ou que seria julgada só por isso? Quantas vezes teve sua fala diminuída ou deixou de fazer algo que queria pelo seu gênero? Nem vou entrar no assunto de pressão estética e em números de cirurgia plástica.

Basicamente, todos esses Super-Mínimos-Direitos que são celebrados não existem porque nós somos tratadas como iguais, existem porque, de alguma forma é mais benéfico para os homens.

É mais benéfico que não engravidemos e possamos iniciar nossas vidas sexuais cada vez mais cedo. É mais benéfico que possamos votar neles- ainda que 51% da população seja de mulheres, apenas pouco mais de 10% dos cargos políticos são delas- para que possam decidir sobre nossas vidas e nossos corpos da forma que for melhor para eles. É conveniente que possamos trabalhar ganhando menos e gastando mais porque isso mascara como eles lidam com o divórcio quando o casal tem filhos. É conveniente que possamos andar de biquíni nas praias (eu preciso mesmo explicar essa?!). E é mais conveniente que tudo isso aconteça mascarado de grande conquista social, para que elas sorriam e acenem e continuem aceitando o mínimo como se fosse o máximo.

Desculpe-me se esse comentário de alguma forma estragou sua “felicidade” sobre o dia 08 de março, é que talvez o motivo dessa felicidade não exista.

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Referências:

https://saude.ig.com.br/2016-11-04/anticoncepcional-masculino.html

https://saude.abril.com.br/medicina/por-que-os-testes-do-anticoncepcional-masculino-foram-suspensos/

https://exame.com/carreira/4-tipos-de-preconceito-que-mulheres-enfrentam-no-trabalho-e-como-vence-los/

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-03/pesquisa-do-ibge-mostra-que-mulher-ganha-menos-em-todas-ocupacoes

https://www.cnnbrasil.com.br/business/2020/12/03/pink-tax-as-mulheres-gastam-mais-do-que-os-homens-ou-apenas-pagam-mais-caro

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-12-29/mulheres-enfrentam-alta-de-feminicidios-no-brasil-da-pandemia-e-o-machismo-estrutural-das-instituicoes.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/15/politica/1418673364_206261.html

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Ana Beatriz Rodrigues tem 25 anos e é advogada criminalista. Coordena comissões de diversidade de gênero e de direito militar da OAB Mirassol, além de ser membro da comissão da jovem advocacia. É pós-graduanda em direito público e em direito empresarial. Considera-se apaixonada pelo direito e pela advocacia desde que iniciou os estudos na área, aos 16 anos, pelo Centro Paula Souza.