Artigo escrito por Ana Beatriz Rodrigues

Do que as pessoas acham que o advogado vive?! Eu realmente gostaria de saber. Esses
dias uma amiga de infância (nada pessoal,@) me pediu para elaborar um documento que
ela precisaria para resolver um problema, passei o valor e nunca mais me retornou. Não
foi a primeira e dificilmente será a última.

A gente vive num país onde o produto tem mais valor que o serviço. Não conheço um
advogado que não tenha escutado a frase “dá uma olhadinha pra mim, o que dá pra fazer
nesse meu processo?” de alguém que não estava disposto a pagar por isso porque,
segundo a pessoa, é algo muito simples e rápido para ser cobrado. Ou o “me tira uma
dúvida aqui rapidão?”. Meu anjo, se você julga que fazer algo seja tão simples que não
mereça remuneração… faça você mesmo. DIY (Do It Yourself).

Há algum tempo eu namorava um sujeito que me ouviu passar o valor de uma consulta e
ficou enraivecido porque “onde já se viu cobrar a consulta, deveria ser dado pra captar
cliente” (até hoje acho que a indignação real era por uma mulher ganhar numa consulta
mais do que eles ganham por dia de trabalho), o que foi muito bem resolvido com a
mágica frase: então o dr monte um stand de favores na praça enquanto eu continuo
cobrando pelas minhas consultas.

Se hoje posso realizar consultas e diligências é porque em algum momento da minha vida
investi, no mínimo, 60 mil reais numa faculdade que me permitisse isso. Fora as pós, as
especializações, o cursinho de inglês etc e tal. Se a pessoa não está disposta a pagar
uma quantia justa para ter sua dúvida sanada então provavelmente já não é um potencial
cliente e só quer saber se tem algo que ela possa fazer sem precisar pagar pelo serviço
de alguém, quando não se dirigir a um colega dando as informações que lhe foram
passadas a fim de mostrar conhecimento e tentar um abate no valor porque “nossa, eu sei
tudo, só não tive tempo de pegar minha OAB, então me faça esse favor”.

“Nossa, dra, mas o que custa pra senhora ver isso aqui rapidinho?!” O que te faz se achar
tão especial a ponto de alguém jogar fora 60 mil reais e um tempo que não volta para
resolver algo que até você acha insignificante?!

Advogado cobra de advogado? Depende do caso concreto.

Se você tem uma padaria, não vai sair dando pão para as pessoas por camaradagem ou
porque “é só um pãozinho”. Se tem um comércio de roupa não vai dar seu produto pra
alguém por ser “só uma blusinha”. Por que diabos acham que o advogado é obrigado a
fazer alguma coisa por favorzinho?! A gente também recebe cartinha com códigos de
barra viu?! Eu ein, gente sem noção.

Já dizia Lara Nesteruk: cobro aquilo que julgo que meu trabalho vale. Eu sei o trampo que
deu chegar aqui. “Ah, mas fulano faz mais barato.” Vai no fulano! Só lembre que no
judiciário não tem como fazer laser para apagar o leão que o Seu Zé fez por 50 pila e ficou
parecendo o mascote do Toddynho depois de um AVC.

Ah, mas pra defensoria faz de graça” Só que não, né?! lá a gente também recebe, bem
menos que pelo escritório particular, mas recebe.

Da mesma forma o brasileiro médio tem tesão louco em reclamar do funcionalismo
público: onde já se viu ganhar x todo mês só por ter passado numa prova?! Curiosamente
são as mesmas pessoas que quando o melhor amigo empossa para prefeito pegam um
lugar no gabinete sem pensar duas vezes. Queria ganhar isso? Simples: estude para isso,
passe numa prova e tenha seu nome publicado no diário oficial! Simples assim.

Quer ter um problema bem resolvido ou evitado? Pague aquilo que o profissional cobra
sem ficar se queixando porque você certamente não sabe fazer sozinho.

Sobre a autora:

Ana Beatriz Rodrigues tem 24 anos e é advogada criminalista. Coordena comissões de diversidade de gênero e de direito militar da OAB Mirassol, além de ser membro da comissão da jovem advocacia. É pós-graduanda em direito público e em direito empresarial. Considera-se apaixonada pelo direito e pela advocacia desde que iniciou os estudos na área, aos 16 anos, pelo Centro Paula Souza.