Por Adriano Nascimento 

Já imaginou participar de uma corrida de cem metros na qual você começaria com 90 metros de desvantagem? Injusto, não é?

O racismo no Brasil não é por acaso e nem novidade. É estrutural. Essa semana mais dois casos tomaram conta dos tabloides, ambos envolvendo jogadores de futebol. O primeiro caso que vou destacar é o do menino Luiz Eduardo, de apenas 11 anos, que foi vítima de injúria racial durante um torneio que acontecia em Caldas Novas em Goiás. Na ocasião, o menino aparece chorando em um vídeo, relatando que o técnico da equipe adversária se dirigiu a ele com palavras de cunho racista. O segundo caso envolveu um jogador famoso, o ótimo meio-campista do Flamengo, Gerson. “Não vou calar a minha boca. A minha luta, a luta dos negros, não vai parar”. Escreveu o atleta em uma rede social. Gerson foi vítima de injúria racial por parte de um outro jogador, o Ramirez do Bahia.

Nosso país foi o último nas Américas a abolir a escravidão. Ainda assim, quando no papel, a escravidão foi abolida, em 1888, nenhum direito foi garantido aos negros. Sem acesso à terra ou a qualquer tipo de indenização por tanto tempo de trabalho forçado, ou seja, sem opção alguma, muitos permaneciam nas fazendas em que haviam sido mantidos escravizados ou tinham como destino o trabalho pesado e informal. Em outras palavras, nada havia mudado, pois as condições subumanas não haviam sido superadas.

O racismo estrutural é a naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que fazem parte do dia a dia do brasileiro, e que promovem, direta ou indiretamente, a segregação e o preconceito racial. Um processo que atinge diariamente a população negra.

No cotidiano da sociedade brasileira estão normalizadas frases e atitudes de cunho racista e preconceituoso. São piadas que associam negros e negras a situações vexatórias, degradantes ou criminosas. Ou atitudes baseadas em preconceitos, como desconfiar da índole de alguém pela cor de sua pele. Você certamente já ouviu expressões como “coisa de preto”, “serviço de preto”, “cabelo ruim”, “ah, mas ele(a) não é preto(a) é moreninho(a)”. Com a última me deparo a todo momento, ela demonstra o quanto é incomodo para as pessoas em geral apenas falarem negro ou preto sem associar a algo ruim, imoral ou desonroso, estigma social que a população negra recebeu ao longo dos anos. Sou preto, e tenho muito orgulho de quem sou!

Essas atitudes preconceituosas reverberam nas instituições públicas e privadas. No Estado e nas leis que mantém a exclusão da população negra. Elas se materializam, por exemplo, na ausência de políticas públicas que possam promover melhores condições de vida a essa população.

As questões raciais são estruturantes porque fazem parte da construção das nossas sociedades. As subjetividades que nos compõem — os nossos preconceitos, por exemplo — acabam construindo as relações sociais que estabelecemos. E essas relações estão estabelecidas em uma construção histórica equivocada, que mantém a população negra em posição de subalternidade.

Essa relação é um problema evidenciado por números. No Brasil, pessoas negras são mortas com mais frequência que pessoas não negras: os negros representam 75% das vítimas de homicídio, segundo o Atlas da Violência de 2019. São maioria, também, em meio à camada mais pobre da população: dos 10% de brasileiros mais pobres, 75% são negros, segundo o IBGE.

O feminicídio, isto é, o assassinato de mulheres por sua condição de gênero, também tem cor no Brasil: atinge principalmente as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%, ao passo que o índice de feminicídios de brancas caiu 10% no mesmo período de tempo. Os dados são do Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais. Uma evidência de que os avanços nas políticas de enfrentamento à violência de gênero não podem fechar os olhos para o componente racial.

Não podemos nos calar ou fechar os olhos para essa realidade. É preciso debatermos com todos ao nosso redor e nos policiarmos para a não utilização de termos racistas, nem de brincadeira, se é que isso pode ser chamado de brincadeira.

Não basta não ser racista é preciso ser antirracista!

Adriano Nascimento – Professor / Colunista Colaborativo/ Ativista do Movimento Mirassol Popular e da Frente Mirassol Sem Medo / Graduando em Gestão Pública e Ativista dos Direitos Humanos certificado pela Anistia Internacional.

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Adriano Nascimento (Imagem: arquivo pessoal)