Por João Alberto da Silva*

Não é preciso muito. Uma simples passagem por postagens, comentários e discussões presentes nas redes sociais é suficiente para observar o quanto o Senso Comum ganhou holofotes nos debates político, religioso, moral e econômico. Embora o conhecimento científico seja clamado rotineiramente por esses mesmos debates, apresenta-se, em sua grande maioria, apenas como um suposto argumento para sustentar a própria opinião ou posicionamento. Nota-se, no entanto, que não há uma clareza sobre o que realmente vem a ser o conhecimento científico, desconhecimento este que resulta na banalização da própria ciência.

Nada tenho contra o Senso Comum. Muito pelo contrário. É nele que toda a minha capacidade de conhecimento e reflexão teve origem. Ninguém pode se tornar um bom filósofo, cientista, artista ou religioso sem antes passar pelo Senso Comum. É a porta de entrada para o conhecimento humano; por isso não deve ser desvalorizado. Em muitas ocasiões, para que haja boa aplicação crítica do conhecimento, é preciso retornar ao senso comum. O real problema, acredito, está em sua desvalorização, cujo resultado é o crescimento vertiginoso de suas fragilidades.

A crítica é amplamente necessária. Mas vale dizer: criticar não é ofender, agredir, diminuir, desvalorizar. Mesmo sabendo que muitos entendem a crítica desta forma, o erro não pode ser perpetuado. Criticar é analisar, estudar, refletir, identificar forças e fragilidades, entender mais profundamente, buscar a verdadeira raiz do problema. Defendo, desta forma, que o Senso Comum não deve ser desvalorizado, mas profundamente criticado.

Decifrando o senso comum 

 

Eis aqui um entendimento que deveria ser pauta de todo e qualquer estudo voltado a iniciação científica: o que é Senso Comum? É verdade que nos cursos de nível superior há uma disciplina voltada para este assunto, a Metodologia do Trabalho Científico, mas não vejo com bons olhos iniciar esse estudo somente no Ensino Superior. É muito tarde deixar só para este período. O entendimento tem de começar muito antes; se possível, ainda no Ensino Fundamental.

Senso Comum é um conjunto de conhecimentos, entendimentos, comportamentos e tradições disseminado na sociedade. Conhecimento que não é exclusivo de um indivíduo, mas anterior a ele e adquirido no próprio convívio social. Não há socialização sem interação entre indivíduos, e é no interior da interação social que o Senso Comum se solidifica.

O princípio de sustentação do Senso Comum é simples: quanto mais tempo de vida, mais conhecedor é o indivíduo. Um idoso será sempre mais sábio que um jovem, pois, por ter mais idade, o idoso já vivenciou uma quantidade muito maior de interações sociais que o jovem.

A ideia de que as pessoas mais velhas são mais experientes que as pessoas mais novas é amplamente aceita nesta categoria de conhecimento, pois elas “têm mais experiência de vida”. O acúmulo de experiências vividas (vale dizer que todas essas experiências ocorrem no interior de uma sociedade) é suficiente para declarar homens e mulheres possuidores de maior conhecimento e entendimento sobre a realidade.

Por ser essencialmente cumulativo, o Senso Comum tende a ser pouco ou nada refletido. É justamente nesse ponto se encontra a sua maior fragilidade: por ter uma reflexão muito limitada e superficial, algumas vezes até inexistente, nem sempre é capaz de perceber suas contradições, equívocos, e imperfeições. Não se trata de um conhecimento ruim, mas um conhecimento ingênuo, presa fácil da sua própria ingenuidade.

Muitos são os pontos fracos do Senso Comum. Dentre eles, considero os Tabus Sociais como estando entre os mais perigosos.

Sutileza dos tabus 

 

(Foto/Divulgação: Wikipédia)

“Tabu” é uma proibição. Melhor dizendo, o objeto de uma proibição, assunto proibido, algo que não pode ser discutido. São muitos os motivos para que essa proibição exista. Historicamente falando, ela tem início com crenças religiosas, superstições, e até mesmo defesas autoritárias do Sagrado. O Cristianismo Medieval pode ser um bom exemplo disso. Mas, com a modernização da história, essas proibições se estendem também à cultura, à política, à economia, e à moral.

Muitas são as motivações para que um assunto não seja discutido, refletido, abordado ou debatido, mas há um que se destaca: o medo. Tabus são assuntos que, direta ou indiretamente, tendem a ser evitados a qualquer custo pelo Senso Comum. Vale de tudo para evitá-los: posicionamentos moralistas, discursos de ódio e pecado, defesa da moral de dos bons costumes, supostos sentimentos nacionalistas e patrióticos, defesa do bem.

Com o medo da reflexão, prevalece o silêncio. Se por algum motivo não puder mais ser evitado em algum momento, argumentos fundamentalistas e intolerantes são instintos de defesa contra ameaças de sobrevivência frente ao pânico do inevitável. Mas o que realmente está por trás é o desconhecimento da verdadeira natureza de tais assuntos, conhecimento que só pode ser obtido pela reflexão crítica, rigorosa e profunda. Justamente a criticidade pouco existente no Senso Comum.

Tabus são sempre sociais, pois é no interior das relações sociais que eles se fazem. Estimula o medo, mas não um medo consciente e que possa ser enfrentado pela virtude da coragem, e sim o medo velado, invisível, da qual não se tem a menor consciência. É preciso dizer: tabus são sempre sutis, e nisso está maior maior letalidade. Evidencia-se no forte incômodo coletivo que é despertado sempre que o assunto vem a tona.

 Tabus atuais

 

A sociedade atual é repleta de tabus. Eis aqui alguns exemplos: morte, suicídio, sexualidade, menstruação, machismo, racismo, criminalidade, política, religião… Exemplos que podem fazer alguém questionar: como podem esses temas serem considerados proibidos se são discutidos o tempo todo? É justamente essa a sutileza do tabu: por ser velada, a proibição não é aparente. Invisibilidade que se sustenta na suposta liberdade de pensamento.

A falta de um conhecimento assertivo e profundo sobre tais assuntos desperta insegurança no debate. A facilidade de lacunas e contradições por falta de propriedade torna invasiva a recepção de questionamentos e contra-argumentos. Sem respostas, conhecimentos limitados geram indivíduos acuados, defensivos e, em muitos momentos, ofensivos. Nascem então as polêmicas que pouco ou nada contribuem com o verdadeiro debate. Agressivas, fortalecem ainda mais as inseguranças e semeiam o medo da reflexão. Medo de ser rejeitado, isolado, e, mais recentemente, “cancelado”.

Eis aqui um dos pontos mais frágeis da sociedade atual: uma suposta liberdade de expressão que enfraquece o debate científico, fortalece as lacunas do senso comum, e produz significativos retrocessos que solidificam tabus sociais. Tabus que espalham o medo velado e ocultado pela Ditadura da Opinião, geralmente disfarçado pela suposta “vontade da maioria”.

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SOBRE O AUTOR DO ARTIGO

João Alberto da Silva é Professor de Filosofia, Sociologia, e Ensino Religioso nas séries finais do Ensino Fundamental, e nos três anos do Ensino Médio no Colégio Agostiniano São José, em São José do Rio Preto/SP. Formado em Filosofia pela Universidade do Sagrado Coração (Bauru), e Pós-Graduado em História e Mídia pelas Faculdades Adamantinenses Integradas, hoje Centro Universitário de Adamantina (UNIFAI), e Pós-Graduado em Planejamento, Implantação e Gestão da Educação à Distância pelo Centro Universitário Claretiano. É também fotógrafo pela empresa Doce Encanto Fotografia, membro do Coletivo Diversidade Interior e Arte, e autor do blog que leva o próprio nome, além de autor de diversos artigos publicados em jornais impressos de Marília, Tupã, Lucélia, e Osvaldo Cruz.