Por Ana Beatriz Rodrigues

Aí você se forma, pega sua vermelhinha e está pronto para abrir um escritório; ou ao menos estaria se não estivéssemos num cenário de caos político e pandemia de COVID-19.

Inicio de carreira, por si só, não é tarefa fácil. Para os advogados a situação é um pouco mais chata porque além de não podermos fazer propagandas vivemos num país onde os bens são mais valorizados que os serviços. A título de exemplo: um cidadão é disposto a pagar um milhão de reais por um apartamento, mas acha um absurdo pagar duzentos reais para pinta-lo.

A maioria de nós, da jovem advocacia – profissionais com até 5 anos de exercício-, viemos de universidades particulares – as famosas “uniesquinas”- o que gera muito preconceito enquanto lutamos para criar um nome.

Quem entra no mercado da advocacia tendo amigos que já atuam no meio tem a vantagem de obter dicas da prática forense e eventuais parcerias de amigos que não atuem na mesma área. Se eu faço tributário e tenho uma amiga que faz criminal, quando aparece tributário ela me indica e eu indico o que aparece de criminal a ela.

Mas quem começa absolutamente do zero, que fez estágio em órgão público, não consolidou um networking profissional durante a faculdade e tem um total de zero clientes na carteira, não vê nada além de desespero enquanto a quarentena se prolonga.

Em alguns municípios, como aconteceu no meu, fora proibida a abertura de escritórios de advocacia ou então fixada pela municipalidade um baixo limite de horário por dia para atendimento (em Mirassol são 4 horas – das 9 às 13 – por força do decreto municipal 5.664), o que desmotiva e desespera muita gente.

A pandemia trouxe uma moda que talvez tenha vindo para ficar nos tribunais: as audiências virtuais. A virtualização do processo, composta pelo binômio autos eletrônicos e audiência virtual, vai ser um empecilho para os advogados mais antigos e um grande aliado dessa nova geração que está chegando agora e que pode usar disso para revolucionar a advocacia e resgatar o prestígio que a classe vem perdendo ao longo dos últimos anos.

Zygmunt Bauman trouxe críticas à modernidade líquida que, embora pareça grande vilã das relações humanas, pode ser o que irá salvar a jovem advocacia durante esse período de instabilidade que estamos enfrentando.

A restrição de publicidade de que trata o estatuto de ética do advogado não significa a impossibilidade total de divulgação do escritório, cada vez mais os Tribunais de Ética e Disciplina têm sido favoráveis ao uso de links patrocinados na internet, como ocorre com o Google Ads porque, para o TED, “não viola norma deontológica da profissão, pois, nesta modalidade de anúncio, somente são alcançadas pessoas que procuram pelos serviços advocatícios”.

Diz a inteligência do Provimento 94/2000 e do artigo 31 do Código de Ética e Disciplina: “(…) A publicidade na internet deve conter informações objetivas apresentadas com discrição e moderação. Pode o advogado divulgar em links patrocinados na Internet seu nome, ou da sociedade de advogados a qual pertença, endereço, telefones e áreas de atuação, dentre outras informações objetivas que entenda pertinentes. É vedada a utilização de expressões imprecisas ou exageradas, ou que extrapolem a modicidade e o caráter informativo com o intuito de chamar a atenção do usuário para seu website.”

Há, também, a possibilidade do jovem advogado, que em sua maioria pertence às denominadas gerações Y e Z, criar websites e páginas de conteúdo para divulgação seu escritório onde podem expor seu conhecimento e trabalho em tempo real, podendo, inclusive, monetizar o acesso desse conteúdo.

Ainda, ferramentas como whatsapp, zoom, skype, que são facilmente domadas pelos jovens advogados, permitem um atendimento sigiloso e seguro durante a quarentena.

A pandemia traz intensos reflexos na área contratual, que é um campo extremamente fértil para o pós-quarentena, além de estar criando uma onda de consciência social nas grandes faculdades que vêm oferecendo pós-graduações sociais (com o custo bem inferior ao mercado).

De fato, o sucesso e os sonhados zeros à direita não vão surgir do dia pra noite, mas o jovem advogado está com a faca e o limão na mão, é questão de saber fazer a limonada para se destacar e, quem sabe, por que não revolucionar

 

Saiba mais sobre a autora do artigo: 

 

Advogada criminalista Ana Beatriz Rodrigues (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Beatriz Rodrigues tem 24 anos e é advogada criminalista. Coordena comissões de diversidade de gênero e de direito militar da OAB Mirassol, além de ser membro da comissão da jovem advocacia. É pós graduanda em direito público e em direito empresarial. Considera-se apaixonada pelo direito e pela advocacia desde que iniciou os estudos na área aos 16 anos pelo Centro Paula Souza.